segunda-feira, 25 de outubro de 2021

É só um peguinha

 

É só um peguinha

 


 

Olhou para o lado, e a segunda garrafa de vinho tinto já estava aberta.

Já passava das dez horas da noite quando decidiu não ficar mais em casa. Era uma sexta-feira, e a única coisa que pensava era na raiva que estava sentindo e que fazia cada pelo do seu corpo se arrepiar diante da ideia de ficar em casa, diante das indignações que vinha sentindo em relação à vida, ao mundo e às pessoas.

Parecia que tinha um outro alguém em seu corpo empurrando-o para fora da própria casa. Parecia que havia uma voz sussurrando que a noite estava de braços abertos para as “aventuras escuras” que só essa hora do dia nos proporciona.

E saiu, seguindo seu instinto – mesmo que agora ele já não tivesse certeza se aquele instinto era seu mesmo. Depois de ter passado por vários bares, decidiu parar em um onde provavelmente encontraria um conhecido.

E encontrou não só um, mas vários colegas se preparando para uma festa.

Por que não? – pensou.

Voltou para o carro e seguiu rumo a uma casa desconhecida, bonita, com portões altos, um belo gramado, muitos carros parados, muita gente entrando, e muita bebida rolando.

Ao entrar, já ouviu o som alto da pista de dança; porém, preferiu ir ao banheiro antes. Quando saiu, deu de cara com um amigo de infância que não estava no bar, mas havia marcado com todos de se encontrar lá. Um belo sorriso deu início à conversa dos dois, que em menos de meia hora já estavam bebendo e conversando com algumas garotas.

Embora estivesse sentindo-se um tanto deslocado, não havia sido esquecido pelas pessoas que ali estavam. E uma delas, em especial, sempre olhava para ele um pouco mais.

Decidiu dar uma volta para respirar, e o que mais encontrou naquele ambiente foi fumaça. Sentiu uma breve tontura ao passar pela pista; mas, mesmo assim, entrou e viu todo tipo de gente dançando com todo tipo de gente.

Seus pensamentos, que estavam aéreos ao sair de casa, agora já nem lhe pertenciam – seu corpo era um simples coadjuvante da sua alma. Encostou-se na parede, e uma mulher veio dizer-lhe algo. Ele não ouviu, e ela continuou até lhe beijar o rosto.

Ele se virou, mediu a mulher e saiu andando, como se à sua frente houvesse um vulto de energia negativa tentando levá-lo para viver as mais promíscuas experiências.

Já no quintal, sentou-se numa mesa vazia; e, antes mesmo de se ajeitar, seus amigos já estavam ao seu redor dando risadas, falando alto, sentando-se, chamando algumas garotas e manuseando algo que ele não conseguia enxergar.

A maconha já rolava solta quando ele percebeu do que se tratava. Nunca havia experimentado. Em alguns momentos de sua vida teve vontade, mas certos valores e medos o barraram.

Agora, com raiva de si mesmo, do mundo e das pessoas e sem saber ao certo o que pensar em relação à vida, questionou-se:

– Por que não?

Olhou atentamente todo o ritual de preparação de um dos “baseados”. Viu um de seus amigos de infância “dichavar” a erva, enquanto outro já preparava um papel. “Bolaram” o cigarro e o finalizaram com um galhinho de árvore que estava por ali. Fecharam com uma bela lambida, e pronto: era a felicidade momentânea em forma de ilusão! Acenderam a “bomba”, e o ritmo da loucura passou a dominar o ambiente.

A mesma garota que conversou com ele e olhou para ele no início da festa agora se sentava ao seu lado e, nitidamente, insinuava-se para ele. Discretamente, seus amigos aprovaram a bela moça, mas seu interesse maior era por algo que eles jamais imaginariam.

 – Dá um “pega”? – pediu em voz alta para que todos ouvissem.

Parou tudo: o som, as gargalhadas, o papo. E todos olharam surpresos na mesma direção, como se não tivessem entendido direito aquele pedido.

Ele pensava que, se as pessoas que usavam a tal droga ficavam tão alegres, não tinha problema experimentar. Todos teoricamente eram seus “amigos”. Se algo lhe acontecesse, eles estariam ali para acudi-lo. Ao seu lado, a bela garota, pelo visto, teria muito prazer em cuidar dele.

Além do mais, era apenas maconha, uma erva natural que não faz mal. Pensou em sua espiritualidade, analisou como isso o afetaria, mas já não estava consciente e muito menos racional para ponderar entre o certo e o errado. Não chegou a nenhuma conclusão. Não estava nem aí.

Pegou o baseado de supetão, pois alguns evitavam que ele se entregasse à tentação. A droga estava ali, em suas mãos, queimando, esfumaçando, instigando-o. Teve a mesma sensação que o levou a sair de casa – era como se alguém estivesse manipulando suas ações.

Sua boca chamava o baseado como se os dois tivessem sido feitos um para o outro. Na roda alguns criticavam sua atitude, enquanto outros pareciam ter prazer em ver mais um fazendo parte daquele ciclo de loucura e perdição.

A garota ao lado ficou quieta.

Agora, com a certeza de que estava fazendo a coisa certa, iniciou o movimento da mão para dar a primeira tragada da sua vida. Nunca tinha fumado, nunca tinha usado nenhum tipo de droga, mas naquele momento ele achava que não tinha nada a perder e que, se a vida não tinha sido como ele queria até então, não ficaria pior por causa disso.

Quando foi encostar na boca, a garota ao lado travou seu braço e lhe perguntou:

– Tem certeza?

Ela olhava para ele no fundo dos seus olhos. Ela não fumava.

– Ah, é só um peguinha – ele respondeu sem o menor peso na consciência.

De repente, ele ouviu um barulho de vidro se quebrando. Olhou para o lado e viu a segunda garrafa de vinho – vazia – caída no chão da sala.

Ufa!

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