quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Vai, filho, vai...



E de longe eu vi um pontinho se distanciando.

E talvez seja assim que deva ser.

Só que, como pai, confesso que me apeguei ao fato de ter o meu filho sempre por perto, ou melhor, de eu estar sempre por perto e não me acostumei ainda a deixá-lo ir sozinho.

O desapego é um troço esquisito: a gente cria laços emocionais com as pessoas, as situações e os lugares, e depois tudo isso parece que faz parte de nós, do nosso corpo, dos nossos pensamentos e até do nosso respirar, mesmo que nada seja nosso ou realmente de dentro da gente.

Quando vi meu pequeno indo sem olhar para trás, correndo no meio da grama, pensei: “O meu bebê não é mais bebê. Meu filhinho pequenino não é mais tão pequenino, e agora ele já tem suas próprias pernas para desbravar onde quiser.

No auge dos seus 4 anos, sua velocidade para seguir adiante foi diretamente proporcional ao frio na minha barriga subindo, mas eu consegui não chamá-lo de volta nem impedi-lo de fazer o que estava com vontade.

De repente ele estava longe, e eu refleti rapidamente que a cada dia que passa o momento de ir soltando o meu filhinho para o mundo fica cada vez mais perto, a necessidade e a vontade dele de conhecer e de estar em diferentes lugares vai se confirmando com a mesma intensidade do seu prazer diante do novo.

Leio e escuto muitas coisas sobre como soltar os filhos, mas confesso não estar tão preparado assim. Eu me coloquei na situação de ficar longe e senti um aperto, uma certa insegurança. Claro que essa insegurança é só minha, individual, pois na realidade acho que eles são muito espertos e se saem muito bem por aí.

Mas eu sou pai, e como tal jamais deixarei de me preocupar e refletir se o que estou fazendo é o certo. Nunca vou deixar de ajudá-lo em sua caminhada, tentarei até o fim dos meus dias influenciá-lo para que seja uma pessoa boa, amável e feliz.

Tá bom, eu sei que é difícil, que é ele quem fará suas escolhas, que a vida ensina, que não podemos deixá-los numa bolha, e blá blá blá... Mesmo assim estarei por perto – se não estiver fisicamente, com certeza estarei em pensamentos.

O que nos mantém próximos de alguém é a afinidade e o tempo durante o qual nos dedicamos a essa pessoa.

Aos poucos vamos soltando nossos filhos, aos poucos vamos amadurecendo a ideia de nos distanciarmos fisicamente, abrindo nossa mente e acreditando que nossa dedicação na criação possa sustentar seus valores e passos.

Nada é certeza nessa vida, e certas coisas acabam mesmo, deixam de fazer parte, de ser necessárias ou simplesmente passam.

Hoje não tem mais o berço e as musiquinhas, já não tem mais colo. Hoje eu já não fico mais sentado fazendo barulhinhos, não preciso mais ajudá-lo a se levantar. Hoje não tem mais mamadeira, fraldas, Galinha Pintadinha e outras coisas daquela fase que passou.

Hoje ele é uma criança querendo evoluir, aprender, conversar, correr, fazer, opinar e até mesmo convencer.

Hoje tem heróis, fábulas, histórias, amiguinhos e companheirismo.

O ontem deixou uma saudade boa de termos vivido o que era pra viver. Hoje temos o prazer de participarmos e estarmos presentes, curtindo cada evolução e aprendizado. Amanhã haverá o desejo de ter feito tudo com amparo para minimizar as angústias da vida.

Vai, meu pequeno, corre pela grama, corre por onde quiser, corre enquanto pode, enquanto tem vontade, deixe toda essa energia positiva de criança abençoar seus dias, viva cada momento com brincadeiras, zueiras, puns, piadinhas, manhas, alegrias puras que só vivemos intensamente na infância.

O dia de amanhã deixemos para pensar depois. Firme seus passos para que sempre tome as melhores decisões. Desvie dos galhos e, quando cair nos buracos, respire, levante e continue. Olhe sempre para trás com gratidão e com a certeza de que superou aquele caminho.

Nossos filhos irão, de um jeito ou de outro eles têm de ir mesmo, para o nosso bem, para o bem deles, para a nossa evolução e principalmente  para a evolução deles, para que os laços se fortaleçam quando a distância apontar que a saudade é uma sensação de querer estar com quem nos faz bem.

Que ele seja sempre feliz, na grama, no escorregador, nas escolas, nos clubes, nas cidades, com os amigos, nos trabalhos e principalmente nas experiências em que não estaremos presentes.

Depois de correr, correr e correr na grama, ele parou, olhou para trás, me viu de longe olhando para ele, deu um sorriso, um tchauzinho e voltou correndo todo feliz e orgulhoso de ter ido tão longe sem cair, sem mim, mostrando o que já sabe fazer. E eu ali parado só pensei: “Ele volta, ele ainda volta”. 

Na minha opinião, só existe um jeito de fazer com que a vontade de estar próximo se fortaleça: superando as crises, brigas, desavenças e opiniões contrárias. É nesse momento que, mesmo diante da dor, o que permanece é o amparo e a pureza de, num simples olhar, se enxergar toda a certeza da existência de um puro amor.