Vai, filho, vai...
E de longe eu vi um pontinho se distanciando.
E talvez seja assim que deva ser.
Só que, como pai, confesso que me apeguei ao fato
de ter o meu filho sempre por perto, ou melhor, de eu estar sempre por perto e não me
acostumei ainda a deixá-lo ir sozinho.
O desapego é um troço esquisito: a gente cria laços emocionais com as pessoas,
as situações e os lugares, e depois tudo isso parece que faz parte de nós, do nosso corpo, dos nossos pensamentos e até do nosso respirar, mesmo que nada
seja nosso ou realmente de dentro da gente.
Quando vi meu pequeno indo sem olhar para trás, correndo no meio da grama, pensei:
“O meu bebê não é mais bebê. Meu
filhinho pequenino não é mais tão pequenino, e agora ele já tem suas próprias pernas para desbravar
onde quiser.
No auge dos seus 4 anos, sua velocidade
para seguir adiante foi diretamente proporcional ao frio na minha barriga subindo, mas
eu consegui não chamá-lo de volta
nem impedi-lo de fazer o
que estava com vontade.
De repente
ele estava longe, e eu refleti rapidamente que
a cada dia que passa o momento de ir soltando
o meu filhinho para o mundo fica cada vez mais perto, a necessidade e
a vontade dele de
conhecer e de estar em diferentes lugares vai se confirmando com a mesma intensidade do seu prazer
diante do novo.
Leio e escuto muitas coisas sobre como soltar os filhos, mas confesso não estar tão
preparado assim. Eu me coloquei na situação de ficar longe e
senti um aperto, uma certa insegurança. Claro que essa insegurança é só minha, individual, pois na realidade acho que eles são muito espertos e se saem muito bem por aí.
Mas
eu sou pai, e como tal jamais deixarei de me preocupar e refletir se o que estou fazendo é o certo. Nunca vou deixar de ajudá-lo
em sua caminhada, tentarei até o fim dos meus dias
influenciá-lo para que seja uma pessoa boa, amável e feliz.
Tá bom, eu sei que é difícil, que
é ele quem fará suas escolhas, que a vida ensina, que não podemos
deixá-los numa bolha, e
blá blá blá... Mesmo assim estarei por perto
– se não estiver fisicamente, com certeza estarei
em pensamentos.
O que nos mantém próximos de alguém é a afinidade e o tempo
durante o qual nos dedicamos a essa pessoa.
Aos poucos vamos
soltando nossos filhos, aos poucos vamos amadurecendo a ideia de nos
distanciarmos fisicamente, abrindo nossa mente e acreditando que nossa
dedicação na
criação possa sustentar seus valores e passos.
Nada é certeza nessa vida, e certas coisas acabam mesmo, deixam de fazer parte, de
ser necessárias ou simplesmente passam.
Hoje não tem mais o berço e as musiquinhas, já não tem mais colo.
Hoje eu já não fico mais sentado fazendo barulhinhos,
não preciso mais ajudá-lo a se levantar. Hoje não tem mais
mamadeira, fraldas, Galinha Pintadinha e outras coisas
daquela fase que passou.
Hoje
ele é uma criança querendo evoluir, aprender, conversar, correr, fazer, opinar e até mesmo convencer.
Hoje
tem heróis, fábulas, histórias, amiguinhos e companheirismo.
O ontem
deixou uma saudade boa de termos vivido o que era pra viver. Hoje temos
o prazer de participarmos e estarmos presentes, curtindo cada evolução e aprendizado.
Amanhã haverá o desejo de ter feito tudo com amparo para minimizar as
angústias da vida.
Vai,
meu pequeno, corre pela grama, corre por onde quiser, corre enquanto
pode, enquanto
tem vontade, deixe toda essa energia positiva de criança abençoar seus
dias, viva cada momento com brincadeiras, zueiras, puns, piadinhas,
manhas, alegrias puras que só vivemos intensamente na infância.
O dia de amanhã deixemos para pensar depois. Firme
seus passos para que sempre tome as melhores decisões. Desvie
dos galhos e, quando cair nos buracos, respire, levante e continue. Olhe
sempre para trás com gratidão e com a certeza de que superou aquele caminho.
Nossos filhos irão, de um jeito ou de outro eles têm
de ir mesmo, para o nosso bem, para o bem deles, para
a nossa evolução e principalmente para a evolução
deles, para que os laços se fortaleçam quando a distância apontar
que a saudade é uma sensação de querer estar com quem nos faz bem.
Que ele seja sempre
feliz, na grama, no escorregador, nas escolas, nos clubes, nas cidades,
com os amigos, nos trabalhos e principalmente nas experiências
em que não estaremos presentes.
Depois de correr, correr e correr na grama, ele parou, olhou para trás, me viu de longe olhando para ele, deu um sorriso, um tchauzinho
e voltou correndo todo feliz e orgulhoso de ter ido tão longe sem cair, sem mim, mostrando o que já sabe fazer. E eu ali parado só pensei:
“Ele volta, ele ainda volta”.
Na minha opinião, só existe um jeito de fazer com que a vontade de estar próximo se fortaleça: superando
as crises, brigas, desavenças e opiniões contrárias. É nesse momento que,
mesmo diante da dor, o que
permanece é o amparo e a pureza de, num simples olhar, se enxergar toda
a certeza da existência de um puro amor.
